05/06/2020

Leitura aprox. de 6min

#thoughts

Tecnologia e originalidade em 2020

Na última semana esse tema tem sido muito recorrente na minha vida - seja aqui no feed do LinkedIn, seja em conversas que tenho ouvido e até mesmo várias pessoas próximas tem falado sobre isso.

O meu grande amigo Ricardo Franzen fez um vídeo essa semana, falando sobre esse tema - “A criatividade ainda existe ou é tudo plágio?”.

A reflexão dele é direcionada para o mundo da fotografia, mas podemos trazer ela para o mundo da música e das artes, para o mundo da tecnologia, e até mesmo para o conteúdo que produzimos diariamente. A linha tênue que separa a inspiração e a referência do plágio e da cópia é muito fina - para algunas pessoas, ela é quase invisível.

Também fui impactado pelo texto do Paulo Luan M., sobre “O problema de quem faz Bootcamps na visão de quem contrata”. Esses dois conteúdos trouxeram à tona algo que eu sempre tive muita preocupação, mas vejo vários profissionais hoje não ligarem muito pra isso - propriedade intelectual.

Já quero deixar bem explícito aqui eu não quero, de maneira nenhuma, condenar e/ou crucificar os bootcamps. Apesar de eu nunca ter feito um, eu acompanho bem de perto vários canais e fontes de conteúdo sobre desenvolvimento.

Inclusive, eu me surpreendo negativamente com a baixa quantidade de fontes brasileiras confiáveis sobre desenvolvimento - nós temos potencial para muito mais!

Até porque, se eu quisesse falar mal de alguém, estaria sendo muito hipócrita; a minha crítica se direciona apenas ao ato de apenas copiar e não criar. E eu quero te mostrar o motivo.

Eu trabalho como desenvolvedor front-end já fazem alguns anos, e tenho me envolvido bastante com open source - uma iniciativa onde a base é a colaboração. Apesar dos códigos serem abertos, eles também possuem licença e foram pensados/criados por alguém - muitas dessas licenças permitem cópias e distribuições sim, por isso é importante ficar atento com esses pontos.

Mas, ainda sobre a questão do plágio; também já realizei algumas mentorias ao longo da minha carreira, principalmente sobre desenvolvimento. Sempre instrui aqueles que estavam me ouvindo a se inspirarem em coisas que eles gostassem ou que achassem legais - uma página, um site, um sistema - mas nunca copiar. Até porque copiar é fácil demais. E no mundo real, no mercado de trabalho, nada nunca foi e nem será fácil.

A “crítica” do Paulo com relação aos bootcamps é válida - apesar de eu nunca ter feito um bootcamp de A ou B, vejo que o resultado final dos projetos é quase sempre o mesmo: refazer a interface/funcionalidade do app X, do site Y…

Isso é bom e ruim; bom porque existem pessoas que estão ensinando e pessoas que estão aprendendo. Mas ruim porque parece que a parte primordial do processo de criar coisas é esquecida: a criatividade. E no final, o que me incomoda nisso tudo é que podemos estar criando “analfabetos funcionais” dentro do mundo da tecnologia.

Analfabetos funcionais? Sim - pessoas autômatas que apenas fazem as coisas; mas não entendem a essência nem a lógica por trás.

Infelizmente já vi profissionais que participaram desses bootcamps, mas que por algum motivo (podem ser vários) não conseguiram captar a essência ou a razão da escolha X ou Y na hora de desenvolver - ou então que talvez não tenham criado ou aprimorado suas habilidades o suficiente para conseguir refatorar um bloco gigante de if/else por object literals - um exemplo bem técnico, mas que é encontrado diariamente.

Ou então, saindo do nível de código - pessoas que não entendem o valor entregue por trás de uma feature, ou como a maneira que ela (pessoa) escreve o código pode influenciar positiva ou negativamente na forma como o usuário interage com o produto final.

Como o próprio Franzen fala no vídeo, nossa criatividade nada mais é do que um resumo de tudo aquilo que a gente já viu e viveu - as experiências de vida, as pessoas, os sons que ouvimos e os cheiros que sentimos… Tudo isso fica armazenado e em algum momento boom 💥 - isso nos gera uma nova fagulha que irá acender um fogo incontrolável dentro da nossa cabeça - e chamamos esse fogo de criatividade.

Quando a gente - e eu não me excluo dessa lista - copia algo, deixamos de exercitar nosso cérebro; isso no longo prazo, nos torna preguiçosos. Preguiçosos para pesquisar, para “pensar fora da caixa” (eu não gosto muito dessa expressão, mas tem gente que ama ouvir isso), para propor novos caminhos. As pessoas querem novas soluções, mas tem preguiça de experimentarem novos caminhos.

Sendo mais direto com relação a tecnologia - claro que é legal quando a gente “recria” a interface de um produto bem-sucedido, ou quando conseguimos replicar algo que gostamos. A sensação de capacidade é boa.

Mas melhor ainda é quando você cria algo seu - quando você junta N referências mas coloca o seu “tempero”. A sensação de capacidade é duplamente melhor.

No GitHub, que é a maior plataforma de open source do mundo, você consegue achar repositórios como o florinpop17/app-ideas, com várias ideias de aplicativos para você criar - não é replicar ou reproduzir, é criar mesmo. Para cada projeto você tem as estórias que precisam ser cumpridas com algumas referências de como resolver os problemas.

On GitHub, the world’s greatest open source platform, you can find repos like florinpop17/app-ideas, which has a lot of apps ideas for you to create - it’s not replicating nor reproducing, it’s creating. For each project, you’ll have the stories that need to be followed with some references on how to solve the problems.

Simples, não? E bem mais divertido.

Vou dar dois exemplos pessoais de como isso (referência x plágio) funciona na prática:

Design Titles x Developer Titles

Eu conheci o site design titles e achei ele super legal. Esse site mostra, de maneira lúdica e até humorística, títulos satíricos e hiperbólicos para designers.

Depois, fui procurar um site que fizesse isso para desenvolvedores - e, diretamente, não achei um. Foi então que eu “criei” o developer titles, que basicamente faz a mesma coisa mas direcionado para desenvolvedores.

Eu quis deixar a interface bem similar, de propósito mesmo. Ainda hoje eu estou pensando em como mudar essa receita de bolo para o projeto, porque eu literalmente troquei apenas 1 ingrediente - no final do dia, o esforço de criatividade foi extremamente baixo, bem como o aprendizado que eu tive fazendo ele.

full-numbers

“full-numbers” é o nome de um outro projeto meu, mais recente. Nele, eu aprimorei um código já existente e adicionei novos recursos - ele transforma números em algarismos (100) para a forma extensa (cem); ainda com o suporte para multi idiomas e valores de moeda.

Esse projeto surgiu como resposta para um problema que foi encontrado no meu trabalho atual, pensando em acessibilidade, já que em alguns casos a sentença “R$ 200” era transcrita para “ERRE CIFRÃO DUZENTOS”.

Esse projeto se tornou um pacote no npm: https://www.npmjs.com/package/full-numbers.

O esforço foi muito maior - tanto em criatividade quanto em escrever o código. E o aprendizado eu tive durante esse projeto foi proporcional ao esforço - aprendi como lidar com a questão de multi idiomas, e como controlar singulares e plurais dentro dos números.

Ambos os projetos são open source, fique à vontade para contribuir!

Enfim, o que eu quero mostrar aqui é que precisamos constantemente sair da nossa zona de conforto, sair do fácil e nos arriscar - sair da mera cópia e criar novas referências.

Ao longo da história, grandes nomes da tecnologia e do empreendedorismo saíram dessa bolha da cópia, ou de ficar fazendo sempre as mesmas coisas repetidas; eles/elas se arriscaram. No final de todo esse texto o conselho que eu posso te dar, independente da sua área e do seu nível de expertise, é “se arrisque”.

Existe uma metáfora que compara nós, pessoas, com o sal - o sal faz toda a diferença em um prato, seja de alta gastronomia ou no feijão nosso de cada dia.

Se você coloca pouco, a comida fica “sonsa”; se você coloca demais, a comida fica apenas com o sabor dele - e se o sal perder o seu sabor, não serve para mais nada além de ser jogado fora. (Essa metáfora você encontra em Mateus 5:13).

If you put it too little, the food is “bland”; if you put it too much, the food just tastes like it - and if the salt loses its flavor, it serves no more than being thrown away. (You can find this metaphor on Matthew 5:13)


Eu escrevi esse texto originalmente como um artigo no Linkedin. Se quiser, pode ler lá também!

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jlozovei | 2021